Até breve Moçambique!

05/10/2026 · franciscofcampossj

Descrição

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Esta é a última crónica que escrevo de Moçambique.
Se calhar, quando a acabar até já estarei em Portugal. Durante dois anos tentei contar histórias, falar de vivências, mostrar imagens, expor cheiros, dar a conhecer este país que se sente logo que poderia ser um paraíso para todos e ainda não o é. Nem sei bem o que acrescente a tudo o que já disse daqui de longe. Que esta terra é fascinante e ao mesmo tempo difícil, já todos percebemos. Tenho estado a pensar nas causas originárias deste fascínio e desta dificuldade inerente e tenho uma teoria que depois outros poderão vir a testar e a comprovar ou a rejeitar. Talvez o próximo cronista que for para Moçambique consiga fazê-lo.
Há duas dimensões sempre presentes na vida de quem está em Moçambique. Dois colossos sempre evidentes no dia-a-dia, a cada momento, a condicionar a vida. O seu potencial é enorme e ninguém o quer deixar escapar. Quer uma, quer a outra, são em escala enorme, brutal, arrebatadora. São duas dimensões sempre presentes em tudo, para o bem e para o mal, e isso transparece tanto que quem cá vem fica rapidamente cativado e muitas vezes cativo delas. Mas são moedas com duas faces e se um dos lados brilha com o sol, o outro fica escurecido pela sombra.
A primeira dimensão a que me refiro é a IMENSIDÃO.
Aqui tudo é grande, enorme, esmagador. Sobe-se ao monte e a escala é comovente. Uma continuidade a perder de vista de alguma coisa, uma visão de quase infinito. Podem ver-se floresta, minas, rios, machambas, colinas, mar, céu, lagos, areais, palmares,... tudo é enorme, desmesurado. O que se poderia fazer com isso entusiasma qualquer um porque está à vista. As paisagens são grandes, as árvores são grandes, os animais são grandes: elefantes, camarões, leões, hipopótamos, baleias, crocodilos, caranguejos, girafas, tubarões,... Também a sua fome é grande. Sim porque as coisas grandes trazem grandes oportunidades, mas também grandes problemas. Depois, as distâncias, de tão grandes, têm de ser encurtadas. Não é nada de especial fazer 1500 km por dia e, apesar de a mobilidade não ser fácil nem confortável, faz-se com alegria. Com grande alegria. No meio dos grandes buracos (por vezes até se fica sem saber por onde vai a estrada), das grandes distâncias, das enormes horas, encontramos ainda outras grandezas enquanto vamos andando. Sobretudo grandes faltas: de dinheiro, de comida, de espírito, de nutrição, de conhecimento, de saúde, de roupa, de meios, de educação, de justiça. Grande é também o crime, a corrupção, os tráficos ilegais, o pecado.
E tudo isso é real, mas no fim as grandes faltas não brilham como os grandes sorrisos, e tantas outras coisas grandes e boas: hospitalidade, tolerância, quantidade de crianças, as potencialidades,...
A segunda dimensão é a INTENSIDADE.
Não sei porquê, mas aqui é tudo mais intenso. Os sentidos são intensamente estimulados: as cores, os sons, os sabores, os cheiros, o calor. É um fascínio de sensações por todos os lados. A intensidade é tal que por vezes se torna até demasiada. As cores de tão garridas fazem os olhos gritar por tons mais amenos; o som, de tão alto e permanente torna-se ruído de ter de fechar ouvidos; os sabores de tão picantes obrigam a uma feroz hidratação que refreie o ardor; os cheiros perfumados da fruta cruzam-se de repente com um contentor do lixo ou de um esgoto que tresanda. Aqui tudo tem de ser intenso. Os frutos tropicais inesperados de um clima também ele intenso, as vozes colocadíssimas e quase estridentes das mulheres a cantar, os melhores solos do mundo com perfis de 4 metros que brotam para fora os vermelhos sanguíneos das argilas ferrosas, as cobras com venenos tão potentes que nalguns casos nem dão tempo para rezar uma dezena a Nª Senhora antes do face a face com o Pai. Até as árvores é comum estarem intensamente em fases simultâneas de folhagem, floração e frutificação, coisa que na Europa raramente acontece e apenas com uma ou duas espécies. E também a chuva que quando quer mostrar-se fá-lo às centenas de milímetros em escassas horas, alternando com um sol abrasador que escalda numa horita descuidada.
São a imensidão e a intensidade que tornam Moçambique um pais tão fascinante e por vezes simultaneamente tão difícil.
Deixo aqui uma série de fotografias que fui tirando neste tempo. A música que as acompanha, apesar de sul africana, ouviu-se muito nestes dois anos em Moçambique. Ndihamba Nawe quer dizer literalmente "Eu vou contigo", mas na cultura Zulu também tem um significado de uma escolha que se faz por alguém. Por mim sinto-me escolhido e acompanhado por tantas caras e paisagens e que aqui aparecem e por tantas outras que ficaram gravadas na minha memória e no meu coração.
Até breve, Moçambique!

Palavra-chave: clima de moçambique

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