Noémia de Sousa/100 anos: Agência Lusa celebra com poesia o centenário da antiga colega

22/09/2026 · Agencia LUSA

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A poeta e jornalista Noémia de Sousa foi recordada com emoção por familiares, amigos e antigos colegas da Lusa durante uma cerimónia na sede da empresa, em Lisboa, que juntou poesia, música, pintura e gastronomia de Moçambique.
No dia em que Noémia de Sousa completaria 100 anos, e na sala da Lusa que foi batizada com o nome desta sua antiga jornalista, a cerimónia de homenagem rapidamente se transformou numa partilha de memórias daquela que ficou conhecida como a “mãe” dos poetas moçambicanos.
Vera Magarreiro, editora da Lusofonia da agência Lusa, apresentou a homenagem como inevitável, principalmente pela atualidade das suas palavras.
“Noémia era humilde e discreta. Não gostava de palco. Mas a homenagem a esta grande mulher impunha-se e hoje o palco é dela”, disse a jornalista.
Para Joaquim Carreira, presidente do conselho de administração da Lusa, esta homenagem faz todo o sentido, sobretudo numa altura em que a agência faz 40 anos e no local batizado com o seu nome.
O seu antecessor no cargo, Nicolau Santos, atual presidente do conselho de administração da RTP, e que foi o responsável pelo espaço de convívio da Lusa ter o nome da poeta moçambicana, levou ao evento a admiração pela mesma, tendo lido um dos seus poemas mais emblemáticos: Deixa passar o meu povo.
À Lusa, disse que “o facto de a Noémia ter trabalhado muitos anos na agência, ela simboliza a luta de libertação dos povos africanos, a luta pela liberdade de expressão, pela boa informação, como pela luta pela boa cultura”.
Sobre a mensagem da poeta, considera que as suas palavras “continuam perfeitamente atuais” e também as peças jornalísticas que ela fez ao longo dos anos “mostram a grande jornalista e grande ser humano que ela era, como talvez infelizmente a urgência que temos de ler essas palavras para percebermos o mundo em que nos encontramos”.
O pintor e escultor moçambicano Lívio de Morais, que conviveu com Noémia de Sousa, congratulou-se com a homenagem, classificando-a de muito justa e que marca “o momento geopolítico em Moçambique”.
“Ela é a voz que não perturba ninguém, mas que diz a verdade ao mundo e ao nosso mundo lusófono”, afirmou à Lusa, antes de protagonizar um dos momentos altos do encontro, mostrando um quadro que terminou esta manhã de pintar com o rosto da homenageada e que ofereceu à agência de notícias portuguesa, além de partilhar outras obras da sua autoria.
Também a embaixadora de Moçambique em Lisboa, Stella Zeca, lembrou a importância das palavras de Noémia de Sousa, sublinhando que, apesar de o contexto ser outro, mas este legado de identidade, a liberdade dos povos, resistência e resiliência, ele continua.
“É altura para refletirmos sobre o que foram as lutas no passado, mas enquadrá-las num novo contexto, em que não há repressão do homem pelo homem, em que os povos partilham a cultura, partilham a arte, para que possam encontrar pontes e estas pontes possam servir de ferramentas para uma nova era”.
A cantora moçambicana Selma Uamusse, que recentemente disse numa entrevista à Lusa que canta a poesia de Noémia de Sousa como um grito de liberdade e que identifica nas suas palavras a urgência de libertar um povo das amarras do colonialismo, marcou presença no evento através do registo em vídeo em que declamou o poema “Súplica”.
“E, a partir de Moçambique, Nelson Saúte, escritor e editor do livro de Noémia de Sousa “Sangue Negro” e da biografia “Se me quiseres conhecer - Noémia de Sousa: Biografia literária" juntou-se aos participantes partilhando alguns momentos da longa amizade que tinha com a poeta e revelou que uma editora portuguesa vai, pela primeira vez, editar a sua poesia.
O encontro contou com a presença de familiares de Noémia de Sousa, tendo a filha, Virgínia de Sousa, recordado o quanto a mãe foi importante na sua independência.
Abriu o debate que se seguiu às intervenções desta homenagem Diogo Pinto, jornalista da Agência Lusa que nasceu no ano em que a poeta morreu (2002), e que enquanto estudante do mestrado em Estudos Africanos realizou trabalhos de investigação sobre Noémia de Sousa.
Hoje, Diogo considera-se “inspirado” pelo trabalho de Noémia de Sousa, o jornalístico e o literário.
A cerimónia de homenagem terminou ao som de música moçambicana e com a degustação de comida de Moçambique, como as famosas badjias, acompanhadas do também tradicional sumo de caju, servidos em coloridos panos africanos, neste caso as capulanas moçambicanas.
Antifascista e anticolonialista, a perseguição política forçou Noémia de Sousa ao exílio em Portugal, em 1951, e mais tarde a uma fuga "a salto" para Paris, França, em 1964.
Após o regresso a Lisboa dedicou a vida ao jornalismo. Já depois de ter trabalhado na ANI, ingressou na agência Reuters em 1972, transitando mais tarde para as agências de notícias portuguesas ANOP (1982-1986) e Lusa (1986-2001).

Texto de Sandra Moutinho e imagem de Rui Filipe Pereira.

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