Nação | TVE - Racismo em Português ep. 2 - Moçambique - 7/7/17

03/09/2026 · TVE RS

Descrição

O Nação traz mais um episódio da série “Racismo em Português” produzida pela Agência Portuguesa Pública em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Os que limpavam nunca viam quem sujava” é o título do episódio que conta a história do racismo em Moçambique, onde ainda hoje, 40 anos após a independência de Moçambique, os moçambicanos ainda tem presente as marcas do racismo: micro agressões no cotidiano, desigualdades econômicas que convivem com as raciais, e um complexo de inferioridade, por exemplo.

Palavra-chave: historias de mocambique

Tags: Nação · TVE · Racismo em Português · Moçambique · Agência Portuguesa Pública · Fundação Francisco Manuel dos Santos

Comentários

@Xando372 · 09/11/2024

Por umas migalhas Deve ter acontecido no final de 1973, quando eu tinha três anos de idade. Num dos raríssimos dias em que o Q. resolveu incluir a mim e à sua esposa nos seus passeios de fim-de-semana, este iniciou-se percorrendo uma estrada rural não asfaltada (mas desfrutando da inovadora suspensão dum Citroën “boca de sapo”), eu deslumbrava-me com a vida selvagem que passava célere pelas janelas do automóvel, fremente de excitação e mal prelibando o que o dia ainda me reservava. Num trecho em que o caminho era abobadado pelas copas das árvores unidas pouco acima de nós, vi macacos – que pareceram me devolver o olhar curioso, porém amedrontado. Logo depois a nossa atenção foi cativada pelas flores: níveas, grandes e abundantes. Incomodou-me um pouco as costumeiras mariquices/frescuras da minha mãe que, com um ar afetado, desvalorizou as flores e o momento, ao dizer que muitas flores lhe provocavam enjôo e até alergias (alegação que nunca se confirmou). Eu falhava em compreender como alguém poderia sentir repúdio e incompatibilidade com tamanha beleza natural – justo uma pessoa que eu amava incondicionalmente e que, ainda por cima, escrevia poesia, desenhava e pintava, denunciando um apurado sentido estético e uma profunda sensibilidade. Bem, eram tempos extremamente conturbados e todos estavam à beira de um esgotamento nervoso. Chegados à borda da lagoa de Fúcua (??, nos arredores de Mabalane), fizemos um pic-nic. Um pouco antes de partirmos, o Q. quis nos mostrar como os peixes saltavam para pegar os pedacinhos de pão que ele lhes atirava. Eu tinha quatro anos e estava feliz, sem poder imaginar as funestas consequências de tanta descontração e inusitada “harmonia familiar”, quando, por toda a parte, os tambores da guerra ecoavam uma nova ordem... Não sei se aconteceu logo no dia seguinte, mas tardou pouco até surgir uma assustadora comitiva no quintal da nossa casa. O administrador (um género de xerife provinciano que garantia a ordem colonial) acompanhava pesarosamente um grupo de soldados da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Atrás destes vinha um homem maltrapilho, cuja expressão facial oscilava constantemente entre a incredulidade temerosa e os sorrisos idiotas, porém maliciosos. Estavam ali para intimidar e intimar a minha família. O administrador, que, até aí, me fora dada a conhecer apenas a sua faceta de boçalidade bonacheirona ( como quem se acha o dono do pedaço, mas não perde uma oportunidade de se divertir com a rapaziada – recorrendo com demasiada frequência às anedotas e à chacota racista), mal conseguia levantar os olhos do chão, envergonhado pela impotência a que tinha que se acostumar no aluimento do seu mundo. Agora mandavam os negros uniformizados, alguns dos quais eram rústicos recrutados à pressa, sentindo-se pouco à vontade nos novos uniformes e empunhando Kalashnikovs (que ainda hoje figura na bandeira de Moçambique!). Mas os seus líderes eram ferinos e queriam, através do medo, deixar bem claro a mudança dos podres poderes. Exigiram revistar até a minha caixa de brinquedos! Pior, apreenderam umas pistolas de plástico (infelizmente apropriadas exclusivamente para mãos infantis) e uma imitação rasca de binóculos; nada que tivesse um aspecto bélico minimamente realista! Dentro da casa, o Q. ( contou-nos depois, fazendo pose de machão) arriscou uma bravata que facilmente poderia ter acabado em tragédia... Ordenaram-lhe que entregasse as armas de caça, e ele, de alguma forma, teve tempo para retirar e esconder as respectivas culatras, mentindo sobre o seu paradeiro. De seguida, fomos obrigados a acompanhá-los de volta ao lago. A presença das crianças brancas foi uma injunção fora de negociação. De volta ao local “do crime”, os meus pais conheceram a versão molhada do inferno para colonos em breve expulsos do seu paraíso africano. Os soldados entregaram-lhes um par de copos e mandaram-nos beber aquela água represada e com tanta matéria orgânica (eutrofizada) que parecia possível dela cortar fatias! O solo à volta estava atapetado de excrementos do gado e de animais silvestres. Não muito longe dali, os hipopótamos de molho inspiravam aquela expressão brasileira <<jogar merda no ventilador>>... (Mas é possível que a adição desses paquidermes aquáticos nesse cenário seja fruto de memórias cruzadas, provenientes duma visita que pouco depois faria a um lago no Zimbabué. De qualquer maneira, a água em causa tinha um aspecto absolutamente nojento.) Os meus pais obedeceram. Os negros tinham dificuldade em segurar as risadas, enquanto, autoritários, apontavam para novos locais onde os meus pais, alternadamente, com água pelos joelhos, se deveriam deslocar para continuar a degustação humilhante. Depois os novos opressores decidiram levar longe demais a “brincadeira”: coagiram a minha mãe para dar de beber a água insalubre aos seus filhos. Ela ficou furiosa, tomou o copo das mãos do marido e bebeu-a de um trago; fitou os soldados e vociferou: <<já chega!!>> E foi mesmo o fim daquele jogo sórdido. Nessa noite, já deitado, escutei os meus pais conversar, inteirando-me da explicação “oficial” para esse pesaroso episódio familiar, nunca mais mencionado. O tal negro esfarrapado era pastor de vacas. Ele observou o nosso almoço campestre junto do lago (como, aliás, era costume fazerem outras famílias caucasianas da região). Apercebendo-se das conturbadas mudanças políticas no seu país ocupado, mas então sob os auspícios dum recém criado governo de transição, contactou a Frelimo com a alegação espúria e velhaca que o Q., ao alimentar os peixes com sobras de pão, tinha envenenado a água que matava a sede do seu gado! Estava na hora dos portugueses receberem o troco por séculos de exploração e humilhação dos negros. E, nesse sentido, a determinação da Frelimo (apoiada pela ex-União Soviética, no paroxismo da Guerra Fria) era implacável. Esses soldados apenas tinham experiência de guerrilha e, subitamente, se viram no papel de novos senhores. Em breve sujeitariam o seu próprio povo aos suplícios duma draconiana doutrinação sino-soviética, ao ponto de algumas das suas vítimas desejarem o regresso do domínio português, como um mal menor. Muito triste. Antes que pudessem se reerguer com firmeza, reinventando-se salutarmente e se organizar como nação independente, os líderes donos das armas deixaram-se manipular pelas duas maiores potências em contenda imperialista na Guerra Fria. ( Do lado dos EUA, o açulamento ideológico e as negociatas de morte chegam à Renamo, Resistência Nacional Moçambicana, sobretudo via Zimbabué / Rodésia e África do Sul.) Apenas volvidos dois anos após conquistarem a independência do jugo português-colonialista, envolveram-se numa guerra civil que se arrastou por 16 anos. O país ficou devastado, com a população maioritariamente esfaimada e mutilada, enquanto os senhores da guerra muito embolsaram... Ó terra linda! Ó povo sofrido! De alguma forma inspiradora, ali a resiliência manifesta-se em abundantes sorrisos que se irmanaram com os dias soalheiros. Para as crianças nascidas em África, mas que foram levadas pela onda do êxodo da descolonização até às costas de Portugal – onde ninguém queria os retornados -, tiveram que aprender a viver com a tristeza da orfandade tropical e principalmente com o rancor cultivado por grande parte dos seus tutores, incapazes de superar a frustração de terem perdido para os “pretos” uma vida boa num país a que também chamavam lar ...

@almanakut · 05/01/2018 · 👍 1

Trágicos acontecimentos em Moçambique tiveram “motivações de natureza económica” - 04/01/2018 Os trágicos acontecimentos que vitimaram duas cidadãs portuguesas residentes nas províncias de moçambicanas de Sofala e Manica tiveram motivações de natureza económica. http://expresso.sapo.pt/opiniao/2018-01-04-Tragicos-acontecimentos-em-Mocambique-tiveram-motivacoes-de-natureza-economica

@Mercito · 21/01/2018 · 👍 1

portugues e o mais pobres na europa