Discurso_de_Independência_Moçambique__1975

20/10/2026 · Despertar Moçambique

Descrição

Discurso por ocasião da posse como Presidente da República Popular de Moçambique
Samora Machel
25 de Junho de 1975


Moçambicanas, Moçambicanos;

Operários, Camponeses, Combatentes, Compatriotas:

Às zero horas de hoje nasceu a República Popular de Moçambique, Estado que nasceu do combate multissecular do nosso povo pela liberdade e independência. Estado em que pela primeira vez no nosso país se implanta o poder da aliança dos trabalhadores.

A nenhum moçambicano, a nenhum cidadão de qualquer país, livre ou ainda oprimido, escapa a profunda significação histórica deste momento na vida do nosso povo, como não escapa também a dimensão internacional deste facto em relação à Comunidade das Nações da qual passamos a fazer plenamente parte integrante.

Mas é menos sobre o presente, embora exaltante que vivemos e que transparece nas nossas faces, nas nossas casas, nas nossas ruas, mas que existe mais profundamente ainda nas nossas consciências, é menos sobre esse presente imediato de alegria, de entusiasmo e de euforia que queremos falar. Queremos sobretudo recordar o passado para melhor poder projectar o futuro.

Queremos recordar antes de mais a memória dos nossos heróis. Aqueles que tombaram na luta contra o invasor estrangeiro, aqueles que pereceram nas fábricas de morte do colonialismo português, seja na deportação e no comércio de escravos, no trabalho forçado, aqueles que o colonial-fascismo condenou à morte lenta, à desagregação familiar, à desagregação espiritual, à despersonalização. Queremos honrar a memória dos gloriosos combatentes caídos no decurso da luta armada de libertação nacional e antes de todos e para lembrar todos citar a recordação imperecível do Primeiro Presidente e fundador da FRELIMO, Eduardo Chivambo Mondlane. Foram eles os alicerces de sangue da nova Nação Moçambicana que se afirmou ao longo destes dez anos, nas nossas zonas de luta e de trabalho clandestino, que se materializava já nas zonas libertadas e que antes de se transformar na realidade nacional que hoje celebramos já vivia nas nossas consciências.

Em sua memória nós pedimos a todos os moçambicanos do Rovuma ao Maputo, que se associem a nós observando um minuto de silêncio.

Nasce a República Popular de Moçambique como fruto da vontade inquebrantável, da determinação férrea do Povo Moçambicano de reconquistar a liberdade, gozar do direito supremo e inalienável de todos os povos a independência nacional.

No momento em que conquistamos essa independência devemos reflectir sobre a realidade que recobria a situação anterior, a dominação colonial.

Porque matava o colonialismo? Porque prendia, deportava, massacrava? Por que eram violadas as nossas mães e mulheres, humilhadas as nossas tradições, negada a nossa civilização, presos os moçambicanos à mínima manifestação de patriotismo? Por que era difundido o alcoolismo, encorajada a prostituição e a desagregação familiar? Por que eram deslocadas famílias inteiras das suas regiões de origem, forçadas a abandonar as terras ancestrais, o gado, a casa, os poucos haveres? Por que acontecia tudo isto em vários lugares do nosso país, como marca inconfundível do colonialismo português? Seria isso a manifestação sádica de mau génio de um povo, fruto da maldade bestial de um homem ou de um grupo de homens?

Não nos enganemos. O colonialismo português é a forma que assumiu no nosso país a dominação imperialista, a exploração de todo um povo e das suas riquezas pelo capitalismo estrangeiro, português e de outros países. Foi para explorar a nossa força de trabalho que milhões de moçambicanos foram transformados em escravos e levados para outros continentes onde os raros que chegavam eram vendidos como mercadorias. Foi para explorar o nosso suor que o administrador colonial nos prendia e nos levava para o «shibalo».

Foi para se apropriar da riqueza do nosso solo que zonas inteiras foram destinadas a certas culturas como o algodão que as populações eram obrigadas a cultivar, morrendo de fome enquanto as grandes companhias concessionárias acumulavam lucros fabulosos.

Foi para pilhar o nosso subsolo que as grandes multinacionais obtiveram concessões e facilidades de exploração de que se serviam para drenar o nosso país das suas riquezas.

Foi para manter o nosso povo submisso perante a sua dominação que o colonialismo procurou — e em alguns lugares particularmente nas zonas urbanas obteve alguns sucessos destruindo a nossa personalidade, semeando a divisão, criando a mentalidade escrava ao estrangeiro. A assim ilação não foi um mero capricho fascinante de um ditador senil mas, constitui realmente a forma mais apurada da escravidão mental ao estrangeiro, um processo deliberado de negação de toda a cultura, de toda a história, de toda a tradição do nosso povo. O homem assim destruído espiritualmente tornava-se uma carcaça viva onde se implantavam docilmente os modos de pensar, de agir, de viver, de colonizador.

CONTINUA (...)

Palavra-chave: história de moçambique colonização e independência